Assistente de João de Deus assediava homens, mostram denúncias

Tiãozinho nega acusações e fato de ter sido ajudante do centro místico. Depoimentos confirmam que ele trabalhava lá

Publicado em 10/01/2021
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Homens não prestarão queixa à polícia. Três deles foram ao lugar em busca de cura para o HIV. Foto: Depositphotos

Não foram apenas mulheres que sofreram assédio na Casa Dom Inácio de Loyola em Abadiânia (GO).

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Quatro homens contaram que foram assediados por Sebastião Lima, braço direito de João de Deus, dentro do centro místico.

Apenas um divulgou o próprio nome, enquanto os outros três falaram anonimamente sobre os episódios ao Metrópoles.Três dos homens vivem com HIV.

Um deles, descrito com o nome fictício de Marcus, relatou ter ido ao espaço em 2014 após ter ouvido que João de Deus curava o vírus do aids.

Marcus havia descoberto ser portador do HIV há alguns meses, foi atendido pelo médium e saiu da sala sem entender.

"Você sai confuso da consulta, ali, entre aspas. Eu não sabia mais o que tinha de fazer, se eu podia ir embora ou tinha de voltar", contou Marcus à reportagem.

Ele perguntou a Sebastião, mais conhecido como Tiãozinho, onde ficava o banheiro, e o homem o acompanhou.

Lá dentro, "ele foi no mictório ao lado (...) pediu para ver meu pênis, quis mostrar o dele e veio com intenção de pegar no meu. Todo sem jeito, eu falei que não era lugar".

Tiãozinho era quem organizava as filas dos interessados em se consultar com João de Deus. Ele estava no centro desde o começo e tinha tanto poder ali que possuía um escritório só para si.

O homem pediu que Marcus voltasse mais tarde para fazer o tratamento. Então, horas depois, Tiãozinho levou o rapaz para o setor conhecido como Enfermaria, onde ficacam os pacientes que eram operados com faca de cozinha por João de Deus.

"Ele colocou um lençol branco por cima e explicou que o tratamento teria que ser feito pelo órgão sexual, a cura seria feita por ali, porque foi ali que o vírus entrou. Como ele ficou muito encostado na maca, ninguém percebeu o que ele estava fazendo", afirmou Marcus.

"Ele disse: ‘Abre sua calça devagarinho, que eu vou precisar segurar o seu pênis para realizar o seu tratamento, porque foi por onde você se contaminou, então vai ter de ser por onde vai ser feita a cura, a limpeza, o tratamento'. Ele ficou segurando o meu pênis, não lembro por quanto tempo, mas disse que eu precisaria ficar em prece o tempo todo."

Ao sair, Marcus ouviu de Tiãozinho que ele poderia se considerar curado do HIV. Ele refez o exame e viu que continua soropositivo e ainda levou um "esculacho" da médica infectologista que o tratava, já que nenhum tratamento como esse cura a doença.

Assistente de João de Deus, Tiãozinho é acusado de assédio gay
João de Deus (ao centro), entre os assistentes João Preto (à esq.) e Tiãozinho (á dir.)

O agente de viagem Felipe Dias contou que foi a Abadiânia quatro vezes entre 1994 e 2000 e que foi assediado por Tiãozinho. Ele afirma que o homem o pegou pelo braço na fila, o levou para sua sala e disse que iria ajudá-lo.

"Dentro da sala, ele chegou perto de mim e, enquanto falava sobre o tratamento, pegou na minha virilha e pediu para ver. Para ver o que tinha lá dentro. Ele então colocou a mão dentro da calça. Eu me afastei, perguntei o que aquilo tinha a ver com o tratamento. Ele disse que eu precisava daquilo."

Outros dois homens afirmam que Tiãozinho os levou para o escritório dele, que ele passou a mão em suas virilhas e tentou beijá-los, dizendo que aquilo era tratamento. "Ele disse que não era viadagem, que era tratamento. Porque ele não era viado, era casado e tinha filhos."

Três ex-funcionários do centro confirmam que os assédios aconteceram e que nás décadas de 1990, 2000 e 2010 o assunto era comentado aos sussurros dentro do centro.

Tiãozinho nega todas as acusações. Ele também diz que não era funcionário do centro, o que é desmentido por centenas de pessoas que trabalharam ou frequentaram o local durante décadas, mostra a reportagem.

A função de Tiãozinho ali dentro foi documentada não só em reportagens como também em biografias autorizadas pelo próprio João de Deus.

Nenhum dos homens que relataram assédio fizeram denúncia à polícia nem pretendem fazê-la. O status de soropositivo, que então se tornaria público, é um dos motivos alegados, além de outros, tal como medo.

Mais de 300 denúncias de mulheres contra João de Deus foram feitas desde dezembro de 2018, quando as primeiras vítimas se pronunciaram ao programa Conversa com Bial, de Pedro Bial, na TV Globo. 

Um ano depois, o médium foi condenado a 19 anos de prisão por crimes sexuais. 

O centro confinua aberto. Tiãozinho, segundo a reportagem, deixou o local abruptamente há alguns anos. Segundo funcionários, os relatos de assédio que ele cometeria no banheiro da casa e desvios de dinheiro seriam os motivos do desentendimento dele com João de Deus.


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