O Centro de Referência LGBTI+ Brunna Valin, que cancelou no sábado 11 uma atividade LGB cis após ser criticado, teve, no últimos 12 meses, 20 eventos focados em trans e nenhum em pessoas cisgênero especificamente, mostra levantamento do Guia Gay.
Nossa reportagem analisou o Instagram do serviço, mantido por recursos da Prefeitura de São Paulo.
De abril de 2025 a março de 2026, foram promovidos no local, no centro de São Paulo, exatamente 20 eventos específicos para trans, dois para lésbicas, um para pessoas intersexo e nenhum para bissexuais e gays.
Nessa contagem, foram considerados apenas programação para um ou mais segmentos. O centro de referência, gerido pela ONG Pela Vidda, desenvolveu nesse período várias atividades para LGBT.
Aqueles números foram ignorados pela vereadora paulistana e trans Amanda Paschoal (Psol) e pelo Fórum SP de Travestis e Transexuais Bruna Valin, que se pronunciaram contra a realização do Encontro Cis-LGB, previsto para ser feito na segunda 13 às 14h.
Nas manifestações tanto da parlamentar quanto do coletivo, há afirmações de que o evento é separatista e prejudicial ao movimento e às políticas públicas LGBT, mas, além de não abordarem os números acima, não houve explicações sobre por que vêem exclusão em uma atividade cis e não têm a mesma percepção quando o foco é apenas o segmento trans, que, em várias vezes, tratam apenas de identidades femininas, sem incluir as masculinas.
Na sexta 10, Amanda expressou-se no X.
"Encontro Cis-LGB? Sério que para a Prefeitura de São Paulo as pessoas trans deixaram de fazer parte da comunidade LGBTQIA+? Que lógica é essa que propõe um espaço de diálogo e cidadania apagando justamente uma parte da população que mais enfrenta violência, exclusão? Nós não vamos voltar para as margens. São Paulo tem um mandato travesti e podem deixar que ele vai trabalhar contra isso!"
A afirmação da política ignora números usados comumente pelo ativismo, embora cada vez mais tais estatísticas sejam questionadas do ponto de vista metodológico.
O Brasil nunca teve estudos sobre assassinatos por discriminação contra LGBT. O que há são levantamentos de assassinatos sem identificação direta da motivação.
Dentro desse universo, o mais considerado é o feito pelo Grupo Gay da Bahia. Em 2025, de acordo com a entidade, o segmento com mais mortes violentas foram gays, que perfizeram 60,7% dos casos, portanto, mais que todos os outros segmentos somados.
Aí, trans femininas vieram em segundo, com 17,9%.
O Fórum SP de Travestis e Transexuais Brunna Valin fez nota de repúdio contra o evento cis.
"Consideramos que o referido evento fere os princípios fundamentais de inclusão, equidade e respeito à diversidade que historicamente orientam a luta da população LGBTI+", é trecho do documento divulgado na sexta 10.

Com a pressão, o centro de referência apagou a divulgação do Encontro Cis-LGB do Instagram e pronunciou-se ao mesmo tempo em que cancelou a atividade.
"Reconhecemos que a proposta do encontro, bem como a forma como foi comunicada, gerou dor, desconforto e a percepção de apagamento da população T. Lamentamos sinceramente por isso. Em nenhum momento essa foi a nossa intenção."
O centro de referência oferece gratuitamente serviços tais como oficinas de capacitação profissional e testagem de DST, e atividades a exemplo de palestras e momentos de sociabilidade.
Características dos eventos de segmentos do
Centro de Referência LGBTI+ Brunna Valin
- De abril/2025 a março/2025, houve eventos trans em todos os meses exceto agosto (em que foram organizados dois lésbicos) e dezembro (em que houve nenhum de segmento).
- O mês da visibilidiade trans (janeiro) contou com 6 eventos para o segmento. Em agosto, foram apenas 2 para tratar da visibilidade lésbica. Em outubro houve um focado em intersexo no mês dessa identidade. Em setembro (bissexual) e fevereiro (gay), nenhum para esses segmentos.
- Dentre os eventos focados apenas em trans femininas está o de 11 de março, em que se discutiu especificamente o ter mais de 40 anos nesse segmento.