Um casal que está junto há dez anos e que se vê diante de destinos desencontrados é o tema da peça Descompassos, do Núcleo Teatro do Indivíduo, que faz temporada dentro da uma quitinete em São Paulo.
Em cena, Marcos (Rodolfo Lima) e Felipe (Marcio Louzada) já são quase intrusos íntimos e veem suas histórias perpassar temas como machismo estrutural, suicídio, violência, codependência, precariedade das artes e bastidores da produção de conteúdo adulto.
Mas, no centro, está a pergunta sobre os alicerces do amor. Afinal, em uma relação gay – como em qualquer outra – o que sustenta dois corpos que dividem o mesmo teto e os mesmos sonhos? E quando o amor não basta?
Sob direção de Lima e5 com codireção de Amanda Steinbach, Descompassos aproxima público e cena ao borrar a linha entre realidade e ficção.
A plateia, restrita a apenas 20 espectadores por sessão, compartilha o mesmo espaço que os atores, como se presenciasse de perto uma DR que, embora particular, ecoa dores e afetos de tantas outras relações gays.
"O que me chamou atenção no texto do Angelo [Mendes Corrêa] é o fato da crise do casal não ser disparada pela falta de amor, desejo ou sexo – o que é comum em muitas histórias gays – mas pela insatisfação pessoal de um dos personagens com os rumos da própria vida", comenta Lima.
"Só o amor não basta. A peça reforça uma impressão minha de que sem companheirismo, renúncia, tolerância e aceitação, não é possível sustentar uma relação gay hoje."
Lima tem vasto currículo em trabalhos sobre relacionamentos homossexuais. Ele dirigiu espetáculos como Réquiem para um Rapaz Triste, inspirado em Caio Fernando Abreu, e Bicha Oca, baseado em textos de Marcelino Freire.
"Pensei na complexidade que envolve qualquer relação humana, mas também nos conflitos interiores de muitos homossexuais, pois vivemos no país que ainda é o que mais mata pessoas LGBTQIA+. Quis refletir também sobre o papel da religião como instrumento de controle de nossos desejos, sobretudo em tempos de fundamentalismos perversos”, afirmou Corrêa.
Descompassos faz 10 sessões entre 1º e 30 de setembro, às segundas, terças e domingos. O local, próximo à Praça da Sé, só é divulgado na véspera da sessão para quem adquirir ingresso. Mais informações você tem em nossa Agenda clicando aqui.