'Maria Luiza': estreia filme sobre 1ª militar trans do Brasil

Longa integra programação do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários

Publicado em 11/03/2019
Maria Luiza: primeira transexual na Força Aérea Brasiliera (FAB) tem história contada em filme de Marcelo Diaz
Ao todo, foram dois anos de filmagens, desde a fase de pesquisa até às gravações

Maior mostra de documentários da América Latina, o É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários anunciou sua programação nesta segunda-feira 11.

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Um dos destaques é o longa Maria Luiza, de Marcelo Diaz. O filme conta a historia de Maria Luiza, cabo da Força Aérea Brasileira por 22 anos e que foi aposentada por invalidez quando se assumiu transgênero.

A produção retrata seus conflitos, desilusões e conquistas em seu processo de busca de identidade como transexual e investiga os motivos pelos quais foi impedida de continuar a exercer sua atividade militar como mecânica de aviação e realizar seu sonho: vestir a farda feminina.

Movido por histórias de transformação pessoal e que de alguma forma questionam o status quo, o diretor conheceu a situação de Maria Luiza por meio de uma reportagem do jornal Correio Braziliense.

"Há quase dez anos atrás, Maria Luiza me recebeu em seu apartamento no Cruzeiro, cidade-satélite de Brasília, de forma muito afetuosa. Ficamos horas conversando. Fiquei extremamente impactado pela história que ela me contou, desde sua vida pregressa em Ceres, interior de Goiás, seu sonho em trabalhar com aviação na FAB, até sua luta por continuar na Aeronáutica, como mulher trans, passando pelos bastidores da vida militar, o casamento, a filha e o processo de mudança de gênero", explica Diaz.

Maria Luiza nunca se reconheceu como uma figura masculina. Curiosamente, nasceu no dia de Santos Dummont, patrono da aviação brasileira. Quando completou 18 anos prestou o serviço militar e entrou para a FAB, onde trabalhou durante 22 anos como cabo.

Enquanto servia na área de mecânica de aeronaves na Base Aérea de Brasília, revelou seu desejo pela transição de gênero. Após muitas passagens por médicos e psicólogos da Aeronáutica, em 1998 recebeu o diagnóstico de transexual e em 2000 o comando decidiu que ela deveria se aposentar com a metade do soldo que recebia na época.

Maria Luiza pediu ajuda ao Ministério Público e deu início a um longo processo pelo reconhecimento de sua identidade como mulher trans. Em 2005, ela fez a cirurgia de transgenitalização e em 2007 corrigiu gênero e nome nos documentos civis. Apenas um ano depois foi emitida sua nova identidade militar como Cabo Maria Luiza, fato sem precedentes no país.

Militar transexual, Maria Luiza tem história contada em documentário de Marcelo Diaz que estreia em 2019

As filmagens duraram dois anos, em períodos espaçados. Foram inúmeros encontros com Maria Luiza, desde a fase de pesquisa até as filmagens. “Ela é uma pessoa com uma vivência e força tão impressionantes e de uma simplicidade e profundidade inspiradoras que sempre dá vontade de estar por perto", conta o diretor.

"Tenho certeza de que qualquer pessoa que tiver a oportunidade de ver o filme poderá sentir-se tocada pela história e pelo que simboliza para o tema da identidade de uma maneira mais ampla."

Além da habitual dificuldade para levantar financiamento para produzir o filme, outro grande desafio encontrado ao longo de todo o processo foi acessar o universo militar onde Maria Luiza prestou serviço.

"Um grande sonho de Maria Luiza era vestir a farda feminina e eu queria muito registrar isso de alguma forma. Mas a realidade às vezes é mais dura. Maria Luiza não pode voltar à ativa e usar a farda feminina", complementa o diretor.

Maria Luiza foi realizado com recursos do FAC (Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal), produzido pela Diazul de Cinema e será distribuído no Brasil pela Olhar Distribuição com lançamento previsto para o segundo semestre de 2019.

Antes, no entanto, o filme terá exibição dentro da 24ª edição do É Tudo Verdade, que será realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro entre 4 e 14 de abril. A programação completa do evento, que conta com 66 filmes, está no site do festival clicando aqui.


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