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Autobiografia do Vermelho


Inspirado no romance homônimo de Anne Carson, o espetáculo Autobiografia do Vermelho ganha uma nova temporada, agora no Teatro YouTube, dentro da Galeria Magalu no Conjunto Nacional.

A peça é, ao mesmo tempo, um romance e um poema, uma recriação não convencional de um antigo mito grego e um romance de formação totalmente original ambientada no presente, no meio-oeste estadunidense.

Gerião é o personagem principal da Gerioneida, um poema lírico narrativo escrito por volta de 650 a.C pelo poeta grego Estesícoro, cujos poucos fragmentos foram encontrados somente em 1967, no Egito. A peça conta a sua história misturando fragmentos da peça original grega com criações de Anne Carson e intervenções de Bianca Comparato e da diretora Daniela.

Gerião, um menino que também é um monstro vermelho alado, revela o terreno vulcânico de sua alma frágil e atormentada em uma autobiografia que ele começa a escrever aos cinco anos de idade. À medida em que cresce, Gerião escapa de seu irmão abusivo e de sua mãe afetuosa, mas ineficaz, encontrando consolo na construção da sua autobiografia e nos braços de um jovem chamado Hércules, um andarilho que abandona Gerião no auge da paixão.

Anos depois, quando Hércules reaparece, Gerião confronta novamente a dor de seu desejo e embarca em uma jornada por terrenos vulcânicos. A paixão obsessiva por Hércules leva Gerião até seu destino inevitável.

Ora excêntrica, ora assombrosa, erudita e acessível, ricamente complexa e enganosamente simples, Autobiografia do Vermelho é um retrato profundamente comovente de um jovem que se reconcilia com o fantástico acidente de ser quem é.

A obra de Anne Carson, Autobiografia do Vermelho, foi destaque no New York Times como Livro notável do ano e finalista do National Book Critics Circle Award. Anne Carson também foi a primeira mulher a ganhar o TS Eliot Prize.

O que acontece com a mitologia clássica, que ainda ecoa no mundo contemporâneo nas formas atuais de pensar, viver e sentir, quando colocamos no centro da narrativa o que antes era periférico a ela? É essa pergunta que a autora nos faz em Autobiografia do Vermelho. Se assim como Carson fez valer em sua maneira de contar essa história o monstro, é a partir de uma ética da monstruosidade - que faz conviver tudo que é estranho entre si - que percorreu o processo de criação do espetáculo. Tudo aquilo que está à margem, que não é aceito pelo mainstream, os queers, os "diferentes", os que estão fora do padrão heteronormativo.

A obra é uma reinterpretação contemporânea do mito de Gerião, o monstro vermelho da mitologia grega, apresentando-o como um jovem sensível e introspectivo. Desde os cinco anos, Gerião enfrenta desafios relacionados à sua aparência monstruosa, com asas vermelhas, que é apresentado de maneira mais humana e introspectiva do que o mito original. Ele busca autocompreensão e amor, especialmente através de sua relação com Hércules.

A história mistura elementos de ficção e poesia, explorando questões de identidade, amor, desejo, e a busca pela aceitação. Gerião é retratado como um jovem isolado, que se vê marcado tanto por sua aparência quanto por seu destino trágico. Ele tem uma relação complexa com Hércules, o herói que deve matá-lo, mas a história se concentra também no desenvolvimento emocional e psicológico de Gerião.

Hércules, que inicialmente é visto como o herói que o mataria, passa também por uma transformação emocional. A morte de Gerião no contexto da obra não é apenas física, mas também simbólica, representando um encontro com o próprio destino e a aceitação de seu ser. Sem se ater a um fechamento !clássico! de um romance, mas mantendo uma reflexão sobre a morte, identidade e a verdade interna.

A obra é profunda e aberta a múltiplas interpretações, convidando o espectador a questionar as fronteiras entre mito, realidade e a construção de futuros possíveis. O espetáculo expressa a pluralidade e diversidade em sua composição de artistas e técnicos da ficha técnica. A equipe é formada majoritariamente por mulheres e também é válido reafirmar que os lugares de protagonismo do projeto são ocupados por mulheres ou pessoas não-brancas e LGBT.

"Encontre o que você ama e deixe isso te matar. Quem disse isso foi Bukowski. E, talvez, seja o que mais me atraiu a fazer a peça. Me lanço nesse abismo de sete personagens, sem medo de errar. Aprendi com a Carson a errar deliberadamente, ela erra deliberadamente, inventa, engana. Este projeto é para mim maravilhosamente perturbador”, revela Bianca Comparato, que está sozinha em cena.

"Já na primeira leitura de Autobiografia do Vermelho, em preparação para dirigir Bianca no audiolivro, fui transportada para o ambiente no qual iniciei minha trajetória no teatro há quase 50 anos: o teatro experimental estadunidense do final dos anos 70, início dos 80, especificamente em Nova York, onde morava então. Lá assisti ou convivi ou trabalhei com artistas de grupos como Mabou Mines, Wooster Group, Living Theater, em teatros como o La Mama, Theater For the New City, Public Theater, e com criadores como Sam Shepard, Laurie Anderson, Richard Foreman, Jeff Weiss, Spalding Grey e por aí vai. Uma potência inventiva de grande impacto, que repercutiu mundo afora, balizou minha imaginação e a quem devo minha formação como artista do teatro”, conta a diretora Daniela Thomas.

"Passando as páginas do livro, fui descobrindo que o monstro alado Gerião (aquele morto pelo herói Hércules, no seu décimo trabalho, no mito clássico) que eu antecipava habitar a paisagem grega era, nessa versão, um jovem americano esquisito e solitário, vivendo na exata geografia dos meus heróis experimentais de Nova York (...) Essa descoberta fez com que eu abraçasse a ideia de transformar o livro em um espetáculo que fosse tributário dessa cultura de teatro que me formou e por quem tenho uma admiração imensa", conclui Thomas.

Direção: Daniela Thomas.
Com Bianca Comparato.
Direção de produção: Fabiana Comparato.
Dramaturgia: Gabi Costa, Bianca Comparato e Daniela Thoma.
Cenografia: Daniela Thomas.
Direção musical, composição e execução: Lello Bezerra.
Direção de movimento e preparação corporal: Malu Avelar.
Desenho de luz e operação: Sarah Salgado.
Desenho de projeções: Henrique Martins.
Figurino: Verônica Julian.
Direção vocal: Leila Mendes.
Visagismo: Walter Leal.
Contrarregragem: Luiz Carlos Ferreira.
Operação de vídeo: Laura de Lago.
Operação de som: Gabriel Edé.
Operação de luz: Nicolas Manfredini.
Assistência de produção: Gabriel Cillo.
Coordenação executiva e financeira: Camilia Cillo.
Design gráfico: Henrique Martins.
Fotos: João Kopv e Matheus José Maria.
Assessoria de imprensa: Pombo Correio.
Produção: South.
Produção associada: 3C Produções, Ipa films e Flagcx.
Apoio: Grupo Map.
Produção executiva South: Bianca Comparato, Roberto Martini e Yana Chang.
Equipe South: Pietra Veiga e Julia Faria.
Assessoria: MCS Law.

Etapas de concepção:

Produção associada: Mariana Beltrão.
Produção executiva: Arlindo Hartz.
Produção de figurino: Lia Damasceno.
Produção: Corpo Rastreado e Gabi Gonçalves.
Colaboração na direção de movimento: Renata Melo.
Assistência: Mariana Faloppa.
Equipe Corpo Rastreado: Gisely Alves, Tamara Andrade, Graciane Diniz.
Apoio: Editora 34, Paradigm Agency, Map, Casa Líquida, PMX, Supersônica. 

Classificação: 16 anos.
Duração: 90 minutos.

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